Política, Psicologia e quem sabe Poesia


 
 

Reunidos

 

A tristeza resplandece tensa
Nos olhos anis da minha platéia
A vulgaridade poética contida
Na apresentação monolítica
Faz confusa as cabeças incapazes
De articular mais de duas notas
Tocadas com ritmo diferente
Daquele decadente desde sempre

Sístole e diástole


Linda mente contida num recipiente transparente
Vitrine.


Se
É a condição sempre inoportuna
A esconder com mentiras a realidade crua.
Cria alimentada com marxismo desde sempre


Existe na desistência alguma honra?
Só se fossemos todos iguais ao ministro
Do irrevogável


Muda o disco
Troca a fralda do menino
Enfia um riso na boca
Senão não tem carinho
E fica tudo por isso mesmo


A escola de hoje
Não ensina
Nem cria o homem que diz ser sua meta
E faz, então, o diabo – o diabo burro.

 



Categoria: Pérolas Poesias Patifarias
Escrito por Johnny às 15h10
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Comentando um texto de Caligaris na Folha de 19/01/2012

 


Alguns leitores pediram que eu me posicionasse sobre a operação policial que tenta acabar com a cracolândia de São Paulo. Aqui vão três posicionamentos. 1) Sou contra violência e abusos repressivos (em tese, o governo também é).
Não dá pra dizer o contrário, né? Será que alguém diria: “sou a favor da violência e dos abusos repressivos”? E lá vem ele pela primeira vez com o “em tese”. Neste primeiro “em tese” o que ele deixa subentendido? Que na prática o governo é violento e abusa da repressão?
2) Com ou sem internações não voluntárias, com ou sem a boa vontade de ONGs e igrejas, só uma ínfima parte dos drogados desistirá do crack e da errância pelas ruas da cidade.
Caligaris tem bola de cristal? Ou é o pedestal da Psicanálise que permite a ele saber de antemão as escolhas da maioria dos drogados? Afirmar que só uma ínfima parte dos drogados desistirá do crack e da errância pelas ruas da cidade não é apenas querer prever o futuro como misturar as bolas entre a previsão deste futuro e o presente. O resultado? Continuar tudo na mesma.
3) E enfim, em tese, sou a favor do projeto de acabar com a cracolândia, mas não me orgulho disso, por duas razões: a primeira é que tenho carinho pelas sarjetas urbanas e ainda sinto falta da Times Square de Nova York nos anos 1970; a segunda pede uma explicação mais longa.
É o segundo “em tese”. Em tese ele é a favor. Em tese, na prática não. E ele não se orgulha disso! E olhem os motivos. “Carinho pelas sarjetas urbanas”, “sinto falta da Times Square de Nova York dos anos 1970”. Caligaris se comporta como um nostálgico rousseauriano. A maldita civilização, sempre ela, é a culpada pelas desgraças humanas. O bom selvagem de Rousseau foi substituído pelos bons maltrapilhos drogados da cracolândia.
A operação cracolândia e o debate que a acompanha na imprensa ilustram as dificuldades do poder na modernidade. Num dos seus melhores seminários (o de 1975, "Os Anormais", Martins Fontes), Foucault mostra que esse poder oscila entre dois modelos: o da lepra e o da peste. Os diferentes e infratores podem ser retirados da circulação, fechados na prisão, na colônia agrícola, no antigo asilo. Esse é o modelo adotado para a lepra; ele segrega no lazareto.
“Dificuldades do poder”. Quando a palavra “poder” cai na roda é motivo mais que suficiente pra preparar os ouvidos – a lenga-lenga do Foucault está na parada. E não deu outra. Não entendo a necessidade de quem utiliza Foucault como referência em esconder a realidade. Caligaris, assim como todos os que rezam pro deus careca francês, fazem questão de negligenciar o problema em questão e partir para abstrações teóricas completamente alheias ao dado que pretendem discutir. É a cama de Procusto retórica. Todos os assuntos, na verdade, acabam sendo reduzidos ao mesmo problema: o poder!
Mas, às vezes, os diferentes e infratores, muito numerosos, espalham-se pelo tecido social de forma que sua segregação seria improvável. É o que acontecia no caso da peste. Os contaminados, então, não eram fechados em lazaretos afastados, mas a cidade era dividida em quadras, que eram vigiadas por, digamos, agentes sanitários: os doentes eram proibidos de deixar seu domicílio, e o governo administrava a vida (e a morte) deles dentro de suas próprias casas.
Depois de reduzido o assunto à “questão do poder” ele tenta uma analogia grotesca entre os “infratores” do modelo da peste e, imaginem!, nós! Essa história vai terminar com os culpados de sempre: nós, a sociedade. Os drogados são as vítimas, nós os carrascos. Se fosse apenas isso, seria mais uma retórica clichê, mas é pior, é pior.
O modelo da peste tinha duas vantagens: ele permitia gerir intimamente a vida concreta das pessoas, e sua motivação aparente era nobre: "curá-las". Por isso, aliás, ele contaminou o modelo da lepra: quase não há mais detenção (modelo da lepra) que não cultive a ilusão de que ela será, para o detento, uma ocasião de redenção ou de cura (modelo da peste).
Continua com a analogia. Leiam isto “permitia gerir intimamente a vida concreta das pessoas, e sua motivação aparente era nobre: “curá-las”.” Caligaris certamente se encaixa perfeitamente no grupo dos que adotam o conceito conhecidíssimo: higienização. Quando o assunto envolver ações públicas direcionadas para fazer valer o Estado e a população dos, que eles adoram denominar, “excluídos”, pronto, lá está a higienização. Acontece no Brasil uma coisa curiosa: os tais “excluídos” são disputados! Certos grupelhos querem a exclusividade sobre eles e se rogam seus protetores! É um absurdo nacional. Essas pessoas são vistas como “variações antropológicas”, como diria o Reinaldo Azevedo, que devem ser preservadas em seu habitat natural. É ridículo. E de um ridículo cruel.
Hoje, podemos ser infratores e incômodos, mas raramente somos "ruins" e irrecuperáveis: seremos emendados pelos bons cuidados da sociedade, pois, de fato, éramos (ou melhor, estávamos) apenas "doentes". Será que este modelo nos deixa mais livres? Engano. Atrás da face indulgente do poder que se inspira no modelo da peste (o infrator estava doente, não fez por querer, está "desculpado"), esconde-se uma face especialmente tirânica: qualquer ato dissonante é reconhecido não como fruto de rebeldia ou originalidade, mas como efeito de uma patologia. Você é contra? Você é diferente? Pois bem, você está doente. Não há mais dissenso -só enfermos e loucos.
Neste trecho o grotesco atinge o ápice. A analogia não poderia terminar diferente: somos todos iguais, irmãos! Notem o plural. Aqui um parêntese. Tenho comigo que quem utiliza plural pra argumentar está desesperado, pois quer a todo custo fazer valer seus argumentos, por piores que sejam, apelando para a indulgência, para a cumplicidade do leitor/debatedor/etc. Voltando. Caligaris apela pra você, leitor, olha que beleza: “Hoje, podemos ser infratores e incômodos, mas raramente somos “ruins” e irrecuperáveis”. Aí você me pergunta: como foi que me meti nisso? Como fui parar ali? Pois é. Na cabeça de algumas pessoas todos padecem dos mesmos males, tem os mesmos problemas, são a mesma coisa! Olhem a pergunta cínica que o autor faz: “Será que este modelo nos deixa mais livres?” Entenderam o lance? No fim das contas a ação da cracolândia é nada mais que restrição, impedimento, cerceamento, da liberdade!
Voltemos à cracolândia. Talvez a toxicomania, uma vez instalada, seja uma espécie de doença. Mas a escolha inicial de se engajar na droga, será que é uma doença? Consideraremos doente (por alguma disfunção do córtex pré-frontal, por exemplo) qualquer sujeito que não se autorregule como a gente?
O cinismo agora é retórico. Olhem a confusão propositadamente feita por Caligaris. Ele quer que o leitor considere como hipótese ele mesmo (o leitor) “estar errado” – no caso seu comportamento de auto-regulação. OK. Aqui voltamos a complacência pedida ao leitor no parágrafo anterior. Se você consentiu, caro leitor, problema é seu. Eu não consentirei. Toda a analogia serviu para desembocar aqui: se somos todos iguais, uns zé-ninguém, como “julgar os outros”? Para Caligaris o problema da cracolândia só existe por que... existe civilização, ora bolas!
Anos atrás, jovem psicanalista, no norte da França, eu me ocupava de adolescentes "problemáticos" pelas drogas que consumiam, pela desistência escolar, por uma criminalidade difusa e pela violência contra os adultos que se opunham a suas vontades. Alguns eram filhos de excluídos, outros inventavam uma marginalidade própria, não herdada.
O que ele ta querendo dizer com isso? Vejamos a seguir.
Um desses jovens escutou pacientemente enquanto eu tentava convencê-lo a frequentar as sessões de terapia e a aceitar a ajuda de uma assistente social, que facilitaria sua reinserção. Quando acabei, ele me disse, pausadamente, olho no olho: "O que lhe faz pensar que eu queira ter uma vida parecida com a sua?".
Entenderam? Caligaris acha que a intervenção na cracolândia se baseia nos mesmos princípios que a sua própria intervenção no caso do jovem. Ele seria, segundo sua visão, o “representante” do “poder” para aquele jovem.
Conclusão. Podemos tentar curar os "noias", ou seja, esperar suprimi-los de um jeito mais radical do que apenas prendendo-os. De qualquer forma, agimos porque os achamos insalubres para nós.
Conclusão a que apenas ele chegou. Para chegar até aqui Caligaris simplesmente ignorou absolutamente a questão real e toda sua complexidade, colocando no lugar eu e você leitor como agentes de repressão.
E peço que ninguém pretenda me convencer que a dita cura, à diferença da segregação ou das porretadas, seria para o bem (ou para a dignidade) deles.
Não sei quem tentará convence-lo disto.
Detalhe. Originalmente, os modelos da lepra e da peste foram maneiras diferentes de lidar com o risco de um contágio. Quando tentamos "curar" vagabundos ou drogados talvez estejamos também reagindo ao risco de um contágio pelas margens sociais. Como assim?
Somos suscetíveis! Ai Jesuis Cristinho! Precisamos esconder nossas mazelas para não sermos corrompidos por elas! Psicanalistas em geral (posso estar cometendo uma leviandade) adoram sustentar a ideia de que não falamos/vivemos/experimentamos/etc certas coisas por que as tememos, mas no fundo as adoramos! Se você prefere que um drogado maltrapilho da cracolândia seja tratado e se livre do vício, ou quer simplesmente que o local em que a cracolândia se abriga seja retomado pelo Estado, cuidado! Você não passa de um suscetível que se ignora por completo mas que sabe o que o atinge profundamente.
Nunca estamos realmente convencidos de que temos razão de sermos bem pensantes e bem comportados. "Curar" à força os perdidos da cracolândia nos ajuda a evitar a sedução que sua "noite suja" exerce sobre nós.
Estão vendo? “Sedução que sua “noite suja” exerce sobre nós”. Sobre “nós”! Olhem o plural aí moçada! Seria cômico se não fosse trágico. Pode-se explicar a vida toda e as escolhas das pessoas com a fórmula Caligaris: somos assim por que, no fundo, desejamos ser assado.

Esse parágrafo evidencia toda a presunção de Caligaris. Mais uma vez recorrendo ao uso do plural ele joga eu e você no mesmo saco, somos a mesma e ordinária coisa e, pior, Caligaris nos conhece e sabe dos nossos desejos, dos mais óbvios aos mais secretos! Afirmar algo como “Nunca estamos realmente convencidos de que temos razão de sermos bem pensantes” é absolutamente contraditório. Se você “nunca está convencido de ter razão e ser bem pensante” como pode afirmá-lo? Se você afirmar que nunca está convencido de ter razão, você subentende, automaticamente, que o que acabou de dizer pode ser falso e tudo que afirmou até então também. Como ele quer, então, que eu acredite nisso: "Curar" à força os perdidos da cracolândia nos ajuda a evitar a sedução que sua "noite suja" exerce sobre nós.

Acho que Caligaris se toma como ponto culminante da sociedade ou da civilização! Ele estende para o coletivo o que lhe é individual, próprio. Supor, apenas supor!, que as pessoas saibam isto ou aquilo, ou desejem isto ou aquilo, pra mim é sinal de que estamos diante de uma argumentação e de ideias imbecis, que incapazes de se sustentar de pé tomam como muletas as mais chulas hipóteses. Hipóteses que roubam o lugar da “verdade”. Troca-se um dado real relevante por meras hipóteses completamente infundadas. Quem age assim quer o que? Debater? Esclarecer a questão? Não. Quer apenas contribuir para a imbecilidade coletiva.

 



Categoria: Crônicas e Artigos
Escrito por Johnny às 12h59
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Money!

 

Os mundos, as órbitas,
Giram ao seu redor.
O umbigo alvo de prazer
Desfaz-se na sinceridade
Comprada a suaves prestações.
Ninguém o ama mais do que
As contas pagas no final do mês.
Com dinheiro, sim.
Sem dinheiro, ela passou sem notar.
Adulação preguiçosa – dos subordinados, empregados,
Da mulher do balcão da padaria –
Viva a vida a dois
E as paredes mudas
E as culpas cegas a mostrar o caminho.
Viva a sinceridade que só vale
Até os últimos detalhes
Da jóia recém adquirida.
Viva as mulheres que só valem
Enquanto puderem gastar.
 

 



Categoria: Pérolas Poesias Patifarias
Escrito por Johnny às 15h01
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O Concordia brasileiro

 

Instantânea ao naufrágio do navio italiano foi a caça ao comandante. O acidente mal tinha acontecido e todos nós já sabíamos, através da imprensa internética, quem era o culpado.

Tenho a estranha impressão de que as notícias são hoje pautadas pela gritaria. Ganha quem grita mais. E quem grita mais tem a notícia escancarada nos portais mundo afora.

É certamente óbvio o interesse da imensa rede de navios em culpabilizar o comandante. Afinal ele é um só. Imaginem o desgaste da imagem se o acidente fosse causado por falhas de equipamento ou falta de manutenção. Mas o “se” não conta na história. Devemos nos ater aos fatos. O fato é que houve acidente. Outro fato é que mais que depressa saíram incriminando o comandante sem sequer investigar, sem provas em mãos.

Esse modo de operar é mais comum do que se imagina. Mas não entrarei nesse ponto agora. Quero aproveitar o tema pra utilizar o mesmo raciocínio em outra área: a política.

A Dilma é quem escolhe os ministros. Um ministro faz lambança – coisa comum nos governos do PT. O ministro é culpado pela lambança, perde o cargo e coisa e tal. Mas quem foi que escolheu tal ministro senão a presidente? Ela não é também, por tabela, culpada pela lambança?

Voltemos ao navio. O comandante é o culpado? Suponhamos que sim. Quem o contratou não terá parte da culpa? Eu creio que sim.

O patrão tem que saber quem são seus funcionários. Tem que confiar neles. Muito mais o presidente eleito de um país. Senão a nação torna-se um navio naufragando sem culpados disponíveis.

 



Categoria: Crônicas e Artigos
Escrito por Johnny às 19h28
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11 de setembro de 2001


Escalada no vácuo
Desespero correspondido
Com os espectadores atônitos
Braços nadando no vento
Narigada no chão
Baque, explosão
O cérebro, a vida, a menina sentada na esquina da infância
Em vão, não, o vão de céu, o paraíso banal conquistado na terra, a 111 metros de altura;
Pularam o vazio

 



Categoria: Pérolas Poesias Patifarias
Escrito por Johnny às 15h12
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Fragmentos

 

Querendo o muito
Pouco se pode

Devagar não sempre
Senão o último lugar
Fica cativo

Vitórias insossas
Conquistadas são
Sem adversários

 



Categoria: Pérolas Poesias Patifarias
Escrito por Johnny às 15h11
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Professora da droga pesada

 

Janet Aueni é o nome da cabra. Formada em Psicologia em 86 por uma universidade chulé de São Paulo ela tem hoje Phd pela Universidade de Moscou.

Seu trabalho de conclusão de curso foi: O materialismo-histórico-dialético: uma análise crítica. O passaporte para a Rússia, então URSS.

Hoje ela dá aulas na Universidade das Jabuticabas, no curso de Psicologia, claro. A matéria é “Os novos modos de produção acadêmica no séc.XXI”

Tive o prazer de assistir uma de suas aulas. Em tom descontraído, sempre sorridente e com uma bolsa Louis Vuitton a tiracolo ela entrou na sala e foi pedindo para os alunos “fazerem uma roda” com as carteiras para então começarem a aula, ops, aula não, “troca de ideias”.

O primeiro assunto foi a visita de Ahmadinejad aos países sul-americanos! Achei estranho, mas fiquei na minha, afinal era apenas um novato-espectador de passagem. Ela afirmou, depois de perguntada sobre a aliança Chávez-Ahmadinejad, que Chávez é um grande líder e conduzirá os países pobres do sul contra os ricos do norte! O silêncio foi sepulcral. Alguns alunos se entreolharam, outros apreciavam os cadarços do próprio tênis, mas nenhum perguntou sobre a tal da guerra!

Eu já não podia ficar na minha. Tremia em cima dos sapatos, como diria Nelson Rodrigues. O mundo ia entrar em guerra e eu não sabia? De repente as coisas começavam a fazer sentido. Entrei num redemoinho de pensamentos: é por isso que o Irã quer enriquecer urânio!, faz todo sentido, ah meu Deus, e o Obama? É por isso que ele retirou as tropas do Iraque! Assim ele vai contar com toda sua potência, mas e a crise na Europa? É tudo mentira, ou melhor, eles estão em crise por que se preparam para a guerra, gastando em equipamento militar mais do que tinham no banco! Ai de nós, ai de nós! E a conclusão inelutável que tirei desse delírio todo? Que Chávez é nosso herói! Que Ahmadinejad vai nos ajudar! Que a Cristina Kirchner censura a imprensa por que ela quer nosso bem! Imaginem se as pessoas soubessem de todo este plano de guerra, as pessoas entrariam em pânico, igual no caso dos Ets!

Sai da aula pronto pra me alistar no exército. Eu não poderia, depois de saber de tudo isso, ficar parado!

Peguei o metro pra voltar pra casa. Na Consolação tivemos que saltar. O metro dali não passava. Os rumores na multidão é que a Paulista estava um caos. Subi as escadas e um barulho orquestrado encheu meus ouvidos: “Ei, polícia, maconha é uma delícia” e depois: “Polícia sem vergonha, seu filho também fuma maconha”.

Tive um sobressalto e parece que acordei. O mundo estava do avesso. Maconheiros certos e a polícia errada? Chávez, Ahmadinejad e Cristina Kirchner heróis? A professora fez minha cabeça tal como um baseado! Certas ideologias são droga pesada.

 



Categoria: Crônicas e Artigos
Escrito por Johnny às 12h04
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Você vai ver o Big Brother?

 

A promessa de ano novo de Natasha foi uma só: não assistir o Big Brother. Confinada desde 1° de Janeiro em um hotel de luxo no Rio, em total desconexão com o mundo, ela hoje finalmente saiu do quarto pra entrar pra história!

Vinte e cinco anos, solteira, loira, corpaço digno de inveja, finalmente ela cumprirá sua promessa de ano novo.

No vídeo que mandou para a seleção ela economizou. Sem efeitos especiais, sem cenário arranjado, sem linguagem difícil, sem roupa! Ela fez o vídeo nuazinha da silva, em pé, com um sorriso crônico nos lábios.

Foi selecionada. Finalmente um de seus sonhos vai se realizar: ela vai aparecer para o Brasil inteirinho! O outro sonho dela é deitar no divã do Contardo Caligaris. Quem sabe...

Os psicanalistas progressistas ficam em polvorosa quando começa mais um BBB. Ficam tarados pra serem convocados a darem seu parecer sobre o programa e os comportamentos dos participantes e do público, de preferência na Globo News. Mas pode ser no Multishow ou no GNT. Ou quem sabe uma entrevista pra Veja. Páginas amarelas! Já sei: pro portal Terra ou IG! É isso.

Mas Natasha está felicíssima. Já embolsou 30 mil e espera ganhar o 1,5 milhão. Vai se mostrar do jeito que é, espera viver um relacionamento amoroso dentro da casa e não participará de panelinhas. Ela pede pra que vocês torçam por ela e votem muito, muito mesmo quando ela estiver no paredão.

Natasha não vai ver o Big Brother. E você?

 



Categoria: Crônicas e Artigos
Escrito por Johnny às 22h42
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A cracolândia e a cretinice – 1

 

Manchete da página do UOL: “Promotores chamam de “desastrosa” ação da PM na cracolândia” e vem com o subitem: “Ação prende 51 e apreende só meio quilo”.

Manchete no caderno Cotidiano na Folha de São Paulo: “Cracolândia ainda tem tráfico a luz do dia”.

Manchete na página do Estadão: “Ministério Público vai investigar operação na cracolândia em SP”.

Imaginemos um estrangeiro em visita ao Brasil que leia estas manchetes. Ele certamente poderia pensar: “Que país estranho! Um lugar apelidado de cracolândia é retomado pelo Estado e a imprensa noticia esta retomada negativamente. Será a imprensa contrária a retomada do lugar? Será ela favorável ao consumo e tráfico de drogas ali presente?

Eu não consigo responder a estas questões levantadas pelo estrangeiro imaginário. O que eu tento compreender (só tento e não consigo) é por que raios a visão sobre a retomada da cracolândia é praticamente a mesma em todos os veículos de notícias. Fica parecendo algo combinado, previamente estabelecido.

Na ocupação das favelas do Rio esta mesma imprensa foi unânime em qualificar a “retomada” do território como algo magnífico, estupendo, histórico! As tais UPPs não ficaram atrás. Foram vistas como exemplo a ser seguido. Exemplo a ser seguido, claro, por São Paulo, o estado em que o número de mortes por 100 mil habitantes é de 10. E no Rio glorificado pela imprensa? O número de mortes por 100 mil é três vezes maior do que o de São Paulo. Mata-se no Rio 30 pessoas por 100 mil habitantes.

Dois pesos duas medidas? É apenas a cretinice ideológica fazendo o serviço sujo da desqualificação... (continua)

 



Categoria: Crônicas e Artigos
Escrito por Johnny às 20h07
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Serena no sereno

 

O culto ao dogma é digno de almas pobres. Ou gente burra, simplesmente, pois esse negócio de alma não é comigo. Ontem estávamos nós, Ofélia e eu, sentados, olhando a lua e divagando na calçada sobre o dogmatismo presente em algumas opiniões. Ela argumentava que algumas pessoas são incapazes de articular seu pensamento sem recorrer ao que chamou de “verdades absolutas”. Concordei por completo. Se analisarmos a construção do pensamento de algumas pessoas (hoje, talvez, da maioria) chegaremos invariavelmente a um lugar comum, a uma ideia que generaliza e sustenta outras ideias contraditórias. O que é isto senão erro puro e simples? Estou sendo condescendente. Se fosse apenas erro tanto melhor. Mas não se trata de erro. Trata-se de má fé.

 

 



Categoria: Pensamentos
Escrito por Johnny às 17h49
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Intransigência estrelada

 

Meus sentimentos salpicam alegres

As mentiras contidas nos versos

Que nunca dediquei a ela

 

Fêmea ferida

Ela procurou consolo sentada na sarjeta chorando

Suas lágrimas não vinham

Ninguém veio

O ódio era maior, afastava as boas intenções,

Aplaudia as más, corrompia os agrados,

Tornava o mundo detestável;

 

Depois de duas horas

Ela sentia duas coisas:

Ódio e dor de garganta

Maldito sereno intransigente

 



Categoria: Poesias
Escrito por Johnny às 21h22
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Arroubos, arrotos

 

Bebendo a juventude

 

A juventude bebe-se

Nos bares, nas festas, nas esquinas

Bebe-se feito cerveja gelada

Bebe-se sem pudor

Bebe-se sem amor

bebe-se com furor, com o prazer mórbido

da imaturidade

 

Bebendo a juventude exalta-se

E crê na própria importância

Bebendo ela tenta explicar-se

 

Bebendo a juventude

Feito cerveja gelada

A cada novo gole

Inicio de outra jornada

Sem ritmo, nem rumo

Apenas velocidade

E uma cara no muro

 



Categoria: Poesias
Escrito por Johnny às 21h21
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Mística musical

 

A chuva muda inunda a tarde

Inóspita

Vidas salpicam translúcidas

Numa solenidade de pingos extrovertidos

Cantarolando em sinfonia amadora

 

Rios se formam com os cantos

As margens são as vozes errantes

Fora de tom a dizer o óbvio

 

As nuvens se foram

Vem aí o som do sol

 



Categoria: Poesias
Escrito por Johnny às 21h18
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Até tu

 

Corria, corria a mulher sem braço, o velho cego, a gata da vizinha, o moleque com o nariz escorrendo, corria, o sapateiro ladrão, a puta encrenqueira, corriam, corriam os cachorros, as vacas, as cabras, corriam, todos corriam, de que? De quem? Atrás do que? Atrás de quem? Da Geni? Não, da Geni não, pois a Geni também corria, até a Geni corria, corria a Geni e os impropérios, as saudações, os palavrões, as frases sem verbo. Corriam as bolas de meia, as flores roubadas, a picanha do açougueiro. Corria a vida, a roda, a paisagem presumida de um filme do Godard. Até o Godard corria. Corria até a Ana Karina. E eu atrás. Também corria. Atrás da Ana Karina. E só.

 



Categoria: Pérolas Poesias Patifarias
Escrito por Johnny às 22h36
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Fidelidade

 

Namoraram 5 anos. Noivaram há 2. Sete anos. Sete anos de mútua compreensão, paixão permanente e fidelidade.

 

Há 3 meses Frederico está desempregado. Lúcia, secretária, é quem banca a casa com a ajuda providencial mensal do pai, um ex-banqueiro que hoje curte a vida atirando nos patos selvagens da sua fazenda no Pantanal.

 

Frederico trabalhava de garçom em um restaurante chique da zona oeste de São Paulo. Foi despedido depois que descobriram a razão do volume das garrafas de uísque diminuir durante a noite. Depois disso tentou ser motoboy e padeiro. Com a moto, bêbado, beijou um poste, deixando boa parte da marginal Pinheiros sem energia. Com os pães descobriu a filha do dono da padaria, 16 aninhos, chegada a um forró risca faca; um dia, depois de duas doses surrupiadas do licor pra bombons, avistou a pequena de longe, lá na porta e esperou que ela viesse pegar o embrulho que deveria levar pra avó, ela usava uma mini-saia entorta pescoço, Frederico não teve dúvidas, quando a menina chegou pra pegar o embrulho ele saiu de trás da bancada onde amassava pão e amassou outra coisa. A moçoila gritou, o escândalo foi geral, o embrulho virou pó e o dono da padaria queria era riscar a faca no lombo do canalha.

 

Lúcia quando soube não acreditou. O Fred? O meu Fred? Perguntava histriônica. Sabe-se lá se era amor. O fato é que por mais que Frederico aprontava Lúcia sempre lhe dava razão.

 

Numa outra ocasião Fred e Lúcia foram jantar na fazenda do pai. Depois da comida o velho tomava uma tacinha de conhaque na varanda. Sabendo do problema com a bebida do marido, Lúcia tratou de servir a tacinha do pai e de Fred e não levar a garrafa. Terminada a taça dos dois o velho quis mais uma, afinal uma tacinha era pouco. Lúcia contrariada deixou que Fred buscasse a garrafa. Passando pela cozinha Fred avistou a filha da governanta que ajudava a mãe lavar a louça. Fred, ao ver a formosura angelical da menina, não teve dúvidas e resolveu se aproximar. Do alto de uma ingenuidade provinciana a governanta não percebeu as graças de Fred pro lado da filha e em um momento de descuido da parte dela o canalha aproveitou para lascar um beijo do pescoço da menina. Pra seu azar, Lúcia, que estava já preocupada com a demora do marido, flagrou o momento do ataque e soltou um grito medonho. Seu pai veio correndo ao seu encontro enquanto Fred se fingia de santo. A menina saiu correndo e chorando. Sua mãe sem entender nada saiu atrás dela deixando o casal e o velho na cozinha. Lúcia tratou logo de se recompor. Seu pai não disse nada, mas já desconfiava de algo, e se calou. Fred estava atordoado, não sabia o que fazer, tomou outra taça de conhaque, e mais outra, e outra.

 

No dia seguinte Lúcia mostrou-se contente durante o café da manhã, como se nada tivesse acontecido. O velho nem sequer perguntou pelo genro. Lembrou-se de uma vez, há muito tempo atrás, quando Lúcia, com a mesma felicidade no café da manhã, matou na véspera, estrangulada, a cadelinha que havia mordido seu sapatinho predileto. A pobrezinha tinha sete anos. Sete anos de muita fidelidade.

 



Categoria: Crônicas e Artigos
Escrito por Johnny às 22h31
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